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O negociador - 21.VI.05
Quanto mais eu reflito sobre a Africa mais eu chego a conclusao de que esse continente chegou onde chegou nao por forca do destino, mas pelas escolhas pelas pessoas.
O melhor livro de sociologia que conheco foi escrito por um Americano chamado Robert Putnam, sobre a Italia. A teoria – genial – eh que o norte e o sul da Italia tem niveis de desenvolvimento muito distintos porque os individuos do norte se reconhecem como membros de uma mesma comunidade, e os do sul, nao. Eh verdade que a teoria nao explica as causas que levam a esse senso de comunidade (antes explicasse, pois salvariamos o mundo), mas eh otima para explicar o grau de desenvolvimento de alguns paises.
A pitonga do Quenia eh que as pessoas aqui nao fazem a menor ideia do que eh comunidade. Existem guetos, eh bem verdade, mas para por ai. Faz lembrar aquela Quadrilha do Drumond, onde a Lili nao amava ninguem. O branco nao se reconhece com o indiano que nao se reconhece com o negro. O kikuio nao se reconhece com o samburu que nao se reconhece com o massai. E meus rinocerontes nao se reconhecem com ninguem, nao come ninguem e nao eh comido por ninguem.
Eh de desesperar. Sempre que vou para qualquer encontro com alguem que possui qualquer coisa, a primeira coisa que passa pela cabeca da pessoa do outro lado da mesa eh “o que ele esta tentando levar nessa jogada?”. Eh simplesmente inaceitavel a ideia de que alguem possa estar tentando apenas jogar limpo. Ja quando vou para um encontro com alguem que nao possui nada, a primeira coisa que passa pela cabeca dela eh “sera o que eu fiz de errado?”.
Voce coloca 5 deles sentados em sua frente e ninguem concorda com ninguem, ainda que eles estejam do mesmo lado. Bem, com uma excecao: todo mundo eh de uma religiosidade tremenda.
Hoje pela tarde tive uma reuniao com meus funcionarios e o sindicato. Expliquei a eles que estava cortando horas extras, limitando o uso de carros, suspendendo novas contratacoes e o diabo a quatro para reduzir custos, mas que nao quero demitir ninguem. No fim o presidente do sindicato rezou uma missa de agradecimento em homenagem a minha alma. Achei que era firula e abri os olhos no meio da reza: eles estavam altamente compenetrados (fiquei imaginando o Lula puxando um Pai Nosso pela alma do Antonio Ermirio durante uma negociacao).
Perco um tempo danado apenas tentando fazer com que as pessoas comecem a perceber que, ainda que nao sejam amigas, podem ter interesses comuns. Fazer alguem compreender que nem sempre alguem precisa perder para o outro ganhar me demanda um tempo danado. Estou ganhando fama de diplomata (justo eu que sempre fui acusado em casa de ter o estopim curto). Ja fui chamado para apaziguar briga de irmaos, estabelecer parcerias comerciais que nao tem nada a ver com o Lewa, desenvolver acordos para parceiros, negociar divida em nome de terceiros, dar conselho matrimonial, dar conselho de investimento, e mais uma duzia de coisas estranhissimas. Em breve vou passar a celebrar casamento!
Uma teoria soh tem carater cientifico se ela pode ser negada. Se eh impossivel nega-la, ela passa a ser dogma, diz a definicao (cientifica) de teoria cientifica. Nao sei se a teoria do Putnam tem qualquer validade cientifica ou a quantas andam as discussoes academicas a respeito, mas o fato eh que eu adoro essa teoria pois ela se encaixa perfeitamente a meu mundo empirico. Ou como dizia Kelsen (que tinha que ser advogado para soltar uma dessas): se a teoria nao se ajusta aos fatos, mudem-se os fatos! Por isso, sigo crendo em Putnam sobre todas as coisas. Amem.
Escrito por Gustavo às 12h57
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Barbarians at the gate - 19.VI.05
A Africa tem sido uma grande experiencia nao soh humana, mas tambem profissional. Lembro que quando estudava no Brasil ou no primeiro mundo eles viviam batendo na tecla do “efficient managers have to adapt”. A maior parte das pessoas que pregavam isso nao tinham a menor ideia do que falavam. Repetiam o chavao porque era isso que era esperado. O maximo de adaptacao para eles era sair do McDonalds e entrar no Burger King. Hoje eu posso dizer que efficient managers have to adapt. Trabalhar em meu pantano doce pantano exige mais adaptacao que eu poderia um dia imaginar ser capaz. Do ponto de vista cultural, gerencial, humanistico, espiritual e ate de meus proprios valores pessoais.
Um exemplo simples, mas que ilustra: “Galicio (um de nossos guias), por que voce nao ficou em Nairobi depois de terminar seu curso de guia?” “Porque em Nairobi voce tem que pagar pela agua e um ser humano que precisa pagar por agua nao tem dignidade”.
Enquanto para nos, ocidentais, falta de dignidade eh nao ter dinheiro para pagar por nossa propria agua, para eles ter de pagar por algo que existe na natureza eh que eh indigno.
E eh assim em todos os aspectos. Do ponto de vista gerencial, eh assustador. Como eles sempre foram subjulgados pelos brancos, acabaram perdendo toda a auto-confianca. Por isso, morrem de medo de fazerem algo errado e serem verbal e fisicamente massacrados. Tentam fazer exatamente o que fizeram da ultima vez, para nao incorrerem em nenhum risco. Eh assim sempre. A criatividade fica reduzida ao zero. Em minhca casa tem 10 caixas distintas de cha com sabores distintos. Se em determinado mes eu vou a cozinha e pego o sache de uma delas, todas as vezes que eu pedir cha para a Lucy ela trara a mesma caixa ate que eu finalmente va a cozinha e pegue um sache de outra caixinha. Ai vou ficar condenado a meses a fio a essa segunda caixinha ate que eu va a cozinha e pegue outra caixinha. Nao que ela nao saiba que eu gosto de variar, mas porque ela nao tem coragem de se arriscar. “E por que ela nao poe um sache de cada sabor em uma pratinho e leva para voce?”. Porque eu nunca disse a ela para fazer isso e embora isso seja o mais racional, ela nao fara ate que eu diga a ela para fazer.
Se isso acontece com sachezinho de cha, imagina o que nao acontece quando voce esta administrando 3 hoteis de super luxo com diarias que vao acima de US$10 mil. As vezes eh um exercicio de zen budismo, outras vezes de humor negro, e quase sempre de incrivel adaptacao.
Na terca-feira tive uma reuniao com todos os meus chefs e expliquei a eles que a partir de agora eu quero um pool de chefs e que eles nao estaram mais vinculados a um dos hoteis em especifico. Tambem expliquei que eles nao estaram mais trabalhando em atividades especializadas, mas em turnos. Ou seja, que em vez de termos 2 chefs na manha em cada lodge, um fazendo paes e outro fritando bacon, haveria apenas um chef fazendo ambas as coisas. Eles gostaram da ideia. Dia seguinte a Anne-Marie me liga desesperada: “meus chefs nao apareceram para o café da manha”. Fui procurar saber o que estava acontecendo. Como eu disse a eles que o sistema mudaria eles assumiram que ninguem precisava trabalhar ate que comecassemos o novo sistema. Enquanto isso eu tinha 26 criancas e seus pais chorando de fome no restaurante.
A minha maior dificuldade eh convence-los de que sou diferente do resto e que nao os demitirei por errarem ou inovarem. Reconstruir a auto-estima de pessoas que passaram toda a vida sendo rejeitadas nao eh algo facil. Certa vez a Andrea me disse que gostaria de educacar o Felipe, meu sobrinho, de forma que ele jamais sentisse que o amor dado pelos pais esta condicionado. Eles o amam e ponto. Nao importa o que ele faca, o que ele seja ou o que ele deixe de ser ou fazer, eles sempre o amarao e apoiarao de forma explicita e esperando por ele de bracos abertos. Se todos os pais e chefes do mundo tivessem nocao de como essa estabilidade emocional eh importante, certamente a vida seria muito mais facil.
Escrito por Gustavo às 12h56
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Profissao: Perigo - 14.VI.05
Eu tinha uns conhecidos que eram viciados em War, aquele jogo de tabuleiro em que todo mundo tenta conquistar o planeta. Eles bem que tentavam jogar com as regras impostas, mas quando a derrota parecia iminente, jogavam o tabuleiro pra cima e gritavam “invasao de marciano”.
A grande diferenca entre aqueles que nasceram na decada de 70 e 80 nao foi a calca boca-de-sin e nem a febre disco. A diferenca foi que aqueles nascidos na decada de 70 tinham idade suficiente para acompanhar as aventuras do McGyver quando ele ainda combatia o Gorbachev. Bons tempos aqueles. Depois que a cortina de ferro caiu o McGyver ficou meio desempregado e acabou tendo que se dedicar a aventuras mais exotericas. Dessas, a aventura que mais marcou foi quando ele salvou o mundo das formigas assassinas do Brasil. Foi um dia para entrar para a historia. O McGyver matando todas aquelas formigas assassinas era emocionante. Elas ate grunhiram de dor quando ele as incendiou.
Domingo, nove da noite, estou eu tomando banho quando olho para a parede de meu banheiro e vejo uma nuvem negra invadindo minha parede. Formigas de Safari. Pior praga da Africa, depois das doencas, fome, gafanhotos e homem branco. Comem tudo que veem pela frente.
Sai de casa para ver de onde elas estavam vindo. Assim que cheguei perto, um bando subiu pela minha perna com uma velocidade assustadora. Arranquei sandalha e roupa correndo e entrei debaixo d’agua. Minha casa estava condenada. McGyver, help me! Ai veio a brilhante ideia: vou por fogo nelas. Fui a cozinha e peguei o querosene. Espalhei 4 litros de querosene e ateei fogo nelas. De repente me ocorreu que meu teto eh de sape. “Humm… Essa ideia foi meio idiota, Gustavo!”. “Ok, o que o McGyver faria uma hora dessas? Humm… Vamos combater fogo com agua!”. Inundei meu jardim. Mas, ideia ainda mais idiota, como eu as estava afogando no jardim, elas subiram ainda mais na unica superficie alta por perto: a parede da casa. McGyver ficaria decepcionado comigo. Entrei na casa e usei duas latas de Baygon inteiras nas paredes para evitar que elas entrassem. De repente me dei conta: tres mestrados, uma cacetada de graduacao, nao sei mais quantos anos trabalhando em super-hyper-mega-nos-eh-phodda consultorias-terno-e-gravata, um punhado de premio na parede, 10 anos assistindo McGyver e vou acabar a vida sendo comido por um punhado de formigas no meio de um pantano no meio da Africa. Hora de perder a vergonha!
“David, posso te pedir um favor super estranho? O mais estranho que ja te pedi!” “Nada pode ser mais estranho do que voce andou me pedindo nos ultimos meses” “Posso ir dormir na sua casa?” “Pode. Mas o que aconteceu?” “Invasao de marcianos” “Ha?” “Minha casa foi tomada por formigas” “HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA”
Dia seguinte o Gerevasio espalhou um tanque de querosene em volta da casa e a Lucy recolheu os cadavers da batalha da noite anterior. Quando cheguei em casa era como se elas nunca houvessem passado por lah. Partiram tao rapido quanto chegaram.
Escrito por Gustavo às 12h55
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Hotel Ruanda – 22.V.05
“Não desejo que me levem a mal: estou disposto a tudo fazer pelo bem-estar do planeta não apenas porque moro nele mas também porque me considero incompetente para desgraçá-lo de forma comprometedora” (Carlos Heitor Cony)
O massacre que ocorreu em 1994 em Ruanda foi o momento mais negro da história humana. Em meros cem dias mais de 1 milhão de tutsis foram mortos pelos hutus. Para se colocar em perspectiva, é como se três World Trade Centers fossem explodidos por dia durante cem dias seguidos; ou como se a máquina de extermínio dos campos de concentração nazista matasse 4 vezes mais rápida do que matou. Um milhão de pessoas mortas a machados, facões, fogo e porretes, além de um número muito maior de aleijados, violentadas, órfãos e o maior êxodo humano de todos os tempos.
Não se encontra razão nas grandes tragédias. Elas são apenas aceitas. Quando muito, encontram-se justificativas. A maior das tragédias, não poderia ser diferente, teve ainda menos razão, apenas a justificativa de que dois grupos étnicos que tiveram suas contradições exaltadas propositalmente pelos colonizadores belgas. E o mundo aceitou calado esse acerto de contas. Foi o momento mais negro não apenas porque foi o maior massacre já cometido, mas porque a humanidade nunca foi tão omissa. Todos sabiam o que acontecia. Todos sabiam o que era necessário fazer. Muitos tinham os recursos para fazê-lo. E ninguém fez.
Nas memórias do ex-presidente Clinton ele diz que seu silêncio naquele momento é seu maior arrependimento. Os governos europeus evacuaram apenas seus próprios nacionais, os países vizinhos fecharam suas fronteiras, deixando os refugiados presos entre as fronteiras nacionais e o exército hutu.
Enquanto muitas tragédias humanas foram estruturalmente coordenadas, em Ruanda matou-se pura e simplesmente. O denominador comum era a incitação e o desmazelo em matar, mas cada célula das milícias hutus matava como queria, fazia seus próprios planos, tinha sua própria agenda e seguia seus próprios impulsos. Mataram a seu bel prazer e nada foi feito. Mas as vítimas eram pobres, eram negras, eram África, eram longe, não faziam falta, podiam morrer.
A guerra em Ruanda acabou (ao menos por enquanto). Mas além de Ruanda, outros países em constante conflito – como o Sudão, Etiópia e Somália – fazem fronteira com o Quênia ao norte e ao oeste.
Em nosso micro-universo, vivenciamos essa realidade no Lewa. Somos provavelmente o último entreposto de desenvolvimento social antes do Sudão. A entrada de armas - especialmente o infame G3 – pela fronteira sul do Sudão é constante e acaba chegando às comunidades atendidas pelo Lewa. Vira e mexe um caçador de marfim é preso ou morto pelos homens do Lewa portando um G3.
E o que um rinoceronte tem a ver com uma guerra? Quando um chifre de rinoceronte é capaz de comprar dezenas de rifles, tem muito a ver.
Quando estive no Brasil há alguns dias vi uma propaganda com o slogan do tipo “quem compra drogas financia a violência”. A propaganda era péssima, mas o slogan não pode ser mais verdadeiro. O mesmo acontece com qualquer outro contrabando ou descaminho. Em nosso dia-a-dia esquecemos que quando compramos um vídeo trazido por uma sacoleira, um papelote de maconha para fumar com os amigos na Bahia, um punhado de dólares do doleiro apresentado pelo amigo do amigo para guardar no cofre, um anel de ouro na praça da República ou uma adaga com detalhes em marfim, esse dinheiro está indo parar em algum lugar obscuro e que a pessoa que o vendeu tem um interesse em esconder esse dinheiro que vai muito além da mera sonegação tributária. Esse dinheiro inevitavelmente vai parar nas mãos de alguém que de uma forma ou de outra vai cometer alguma violência. Nossos bichos não fogem a essa regra macabra. É a alquímica regra do eterno retorno em na sua faceta que tentamos ignorar.
Escrito por Gustavo às 11h42
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Shrek - 05.V.05
Tudo nessa vida é relativo, diz o ditado. Incluindo a felicidade.
Há um ano eu não era capaz de apontar o Quênia no mapa. Hoje moro no meio de um pântano e sou uma daquelas raras pessoas que podem dizer que adoram seu trabalho.
Quando disse q estava abandonando meu emprego terno-e-gravata na Inglaterra para morar na África trabalhando com bicho, com exceção de alguns poucos amigos mais próximos, todos acharam que eu havia perdido o resto do pouco juízo que me restava. Que tipo de louco largaria uma vida confortável em uma cidade absolutamente fascinante como Londres, jogaria um punhado de diploma pela janela e se mudaria para o meio do nada onde à noite, antes de sair do carro, precisa checar se um dos 35 leões que possui como vizinhos não resolveu aparecer para o jantar ou, como diz a Helen, onde em todo canto tem um BWHT (big weird horrible thing)? Pior: que tipo de louco que estudou lei e dinheiro a vida inteira se arriscaria a largar tudo para mexer com bicho em um lugar onde governo é pandemia, guerra é epidemia, a miséria só se iguala à quantidade de doenças estranhas e onde ele sequer fala a língua? Ou como minha avó Maria resumiu: "e se eles não te deixarem sair mais de lá?".
Hoje olho para trás e vejo que foi a decisão mais louca de minha vida (até agora, pelo menos), mas também a mais acertada.
No início de maio mandei um e-mail para alguns amigos no Brasil convidando-os para um jantar em São Paulo. Um deles me respondeu de volta dizendo que um jantar às 8h era impossível para banqueiro de investimento. De repente percebi como sou feliz, como meu trabalho me aprimora, como durmo bem pela primeira vez na vida, como me divirto, como adoro minha equipe e como é bom vestir meu kikoy à noite, sentar na minha varanda, sentir a brisa gelada e ficar apreciando a vida. De repente percebi como se minha vida atual não faz qualquer sentido para os outros, minha vida anterior não fazia qualquer sentido para mim.
Escrito por Gustavo às 11h28
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